quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Reflexões no Salmo 127


Quando o lar é um doce lar.
Recentemente, li em um adesivo de automóvel estas palavras: “Nenhum sucesso compensa o fracasso no lar.” Recentemente em um programa apresentou-se a estatística de que 71% dos entrevistados tinham problemas na vida conjugal e 82% das mulheres se declararam insatisfeitas com o casamento.
Há uma fábula que retrata bem este fato: Diz que três mocinhas estavam no inferno e resolveram fazer uma ligação telefônica para as famílias. A primeira ligou, e contou para a sua mãe como estava lá, como era quente, como era feio,... falou... falou Quando terminou passou no caixa e pediu a conta. A telefonista cobrou R$ 1.200,00.
A segunda da fila, foi, falou... falou... Contou pra mãe quem tinha encontrado ali... falou... falou... Ao sair procurou a moça do caixa e foi pagar o seu interurbano R$ 3.500,00.
Veio a terceira. Conversa com seus familiares mais tempo que as outras. Falou um bom tempo com o pai, mãe, irmão... Ao sair esperava ser cobrada de uma taxa maior. Para sua surpresa, a telefonista acionou o sistema e não veio valor nenhum, “é de graça.”
As outras disseram: “De graça não pode, falou mais do que todas nós.” Procuraram o gerente da Teleinferno que foi logo explicando - "É que ligação local não cobramos."
É que a casa da terceira moça era um inferno. E quantas casas não se identificam bem com o inferno? São semelhantes aos abrigos dos animais: apenas meios de proteção contra o mau tempo.
A Bíblia nos ensina que o lar pode ser doce em vez de amargo, agradável em vez de pesaroso. Porém, não há possibilidade de estabelecer uma família sem as bases de Deus. Se nós não soubermos o que Ele como Arquiteto tem a dizer a respeito do lar, a família será um fracasso, um inferno.
No entanto, o lar pode ser doce quando:
1. Quando Deus é o Arquiteto da Casa. “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam...”
Toda casa precisa ser bem construída. E uma boa construção começa com um alicerce bem firme. Não adianta ter uma mansão ampla e bem decorada, com um belo jardim e uma piscina na frente, mas sem alicerce. Você moraria em um lugar assim?
Quando se trata de construir famílias, só Deus pode ser o engenheiro, o arquiteto e o construtor. Somente ele pode edificar uma casa estável e segura. E para isso Ele nos dá a planta desta construção que é sua Palavra que deve ser ouvida e obedecida (VER Mt 7.24-27) . Quando o homem tenta edificar por sua própria sabedoria sua casa certamente acabará em tragédia e ruínas.
2. Quando Deus é o Protetor da Casa. “Se o Senhor não guardar a cidade em vão vigia a sentinela...”
Uma grande preocupação da sociedade em nossos dias é a segurança. Parece que nossas casas se transformaram em verdadeiras prisões. São grades, correntes, alarmes contra tudo.
As lojas contratam seguranças particulares, os bairros tem vigias particulares que fazem a ronda noturna, nossa igreja tem alarme instalado. Você estaciona o carro e tem que dar gorjeta para o flanelinha. Até nas nossas igrejas contratamos seguranças para vigiar os carros durante o culto.Estamos vivendo uma crise de insegurança.
No entanto o texto é claro não existe segurança na família sem Deus. Gosto do Sl 121.4 quando diz: “É certo que não dormita nem dorme o guarda de Israel”
Se a segurança do mundo falha, a divina não. A Bíblia diz que o guardião divino, não pestaneja, não cochila, não dorme. É por isso que o Salmista diz: “Deito-me e pego no sono; acordo porque o Senhor me faz repousar seguro.” Sl 3.5
3. Quando Deus é o Provedor da Casa. “Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem”
Diz a sabedoria popular que "O pouco com Deus vale mais do que o Muito sem Deus." Vejam o que diz o Sl 127.2. Nossos investimentos são bem sucedidos quando somos orientados por Deus.
Já vi muita gente dizer que a sua vida está muito bem, porque é trabalhador, levanta cedo e não perde hora de serviço. O Texto descreve uma pessoa com estas características, mas que falta o principal: “Deus como provedor”.
Temos visto pessoas bem empregadas com um salário invejável, que no entanto estão atolados em dívidas, com nome sujo na praça. Enquanto outros que vivem com um ou dois salários observam o milagre da multiplicação dos pães diariamente em suas casas.
O texto não está falando de indolência e preguiça, como aquele cristão que foi encontrado dormindo em avançada hora do dia. Perguntaram-lhe: “Não vai trabalhar hoje?" Ao que respondeu: “Aos seus amados Ele o dá enquanto dormem.”
No entanto o texto sugere duas maneiras de agir: O homem que faz um esforço tremendo confiando no seu próprio poder; e o segundo, de persistente trabalho, confiando em Deus.
4. Quando Deus é o Educador da Casa. Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre seu galardão. Como flechas não mão do guerreiro assim os filhos da mocidade. Feliz o homem que enche deles a sua aljava; não será envergonhado quando pleitear com os inimigos à porta.
Não há duvida que marido e mulher forme um casal, mas marido, mulher e filhos formam uma família. E a palavra nos diz que os filhos são herança, presente de Deus para o casal. Se for assim muitos diriam: “É presente de grego porque tem cada filho.”
Mas a palavra também subentende que Deus deve ser o educador, o pedagogo da família. O apóstolo Paulo afirma positivamente em Ef. 6.4 “... criai-os na disciplina e admoestação do Senhor”. Não basta levar o filho na Escola dominical, mas criá-los na admoestação do Senhor.
Gosto deste Salmo porque compara os filhos criados no Senhor como flecha nas mãos do guerreiro. O guerreiro era alguém hábil no manejo do arco e flecha, e que burilava bem suas flechas. No tiro era certeiro, não errava, acertava na mosca. De forma poética a palavra nos diz que os nossos filhos quando atirados ao mundo não errarão o alvo.
E ainda serão motivo de orgulho e alegria, em contraste com a criança entregue a si mesma que é vergonha para sua mãe...” Pv 15.15
As escrituras dizem que tem um dia que o inimigo vem e bate a nossa porta, mas não entra, porque os filhos não nos trazem vergonha. Os nossos filhos estão firmes em Deus. O sábio Salomão falou acertadamente: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviara dele.” Pv 22.6. O diabo não terá poder para conduzi-la por seus caminhos perversos.
Li a seguinte história: A mãe perguntou para sua filha de 5 anos o que esta faria se o diabo batesse na porta de casa. A criança respondeu: “Eu peço para Jesus atender a porta”.
É isso mesmo. Se quisermos que o lar seja doce e feliz, Deus tem que estar na frente. Se formos atender a porta o inimigo entra. Portanto deixemos Deus construir, proteger, prover e educar nossa família.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

João Calvino - Instrução na Fé


Instrução na Fé – Princípios para a vida cristã
Escrito em 1537 por João Calvino, em forma de resumo das Institutas da Religião Cristã a pedido de Guilherme Farel. Tem por objetivo fortalecer a Reforma Protestante em andamento naqueles dias, bem como, expor de forma clara e concisa a fé ao povo comum.
O livro está dividido em seis partes germinantes e congruentes. A primeira trata do Conhecimento de Deus e de nós mesmos, sendo que, tal conhecimento pode se dar pelas obras da criação, contudo, por causa do pecado que nos cega, faz-se necessário o estudo da Palavra de Deus para a compreensão verdadeira da criação, providência, bondade, misericórdia e justiça de Deus. O capítulo também mostra que o conhecimento de Deus leva ao conhecimento de nós mesmos como seres criados à imagem e semelhança de Deus, caídos no pecado e sujeitos à ira e a retribuição de Deus. Tal conhecimento revela a nossa miséria e desperta em nós um profundo desejo de Deus.
A segunda parte apresenta a lei de Deus como padrão perfeito de toda a justiça. Calvino faz uma interpretação de cada um destes mandamentos, e dá o resumo da lei apresentado por Jesus Cristo. Conclui o capítulo, afirmando que o que herdamos unicamente da lei é este padrão perfeito da retidão de Deus, sendo que por causa da nossa miséria, somos incapazes de nos salvar. A lei condena, mas é também uma preparação para nos achegarmos a Cristo.
Na terceira parte, Calvino demonstra que compreendemos a Cristo através da fé, sendo estes, os eleitos e predestinados por Deus, doutrina esta que devemos contemplar com confiança. Trata também da verdadeira fé que vai além do simples conhecimento de Deus, sendo uma confiança firme na misericórdia d’Ele prometida no evangelho. Enfatiza ainda, a verdade bíblica de que a fé é dom de Deus, que somos justificados em Cristo pela fé e que também, santificados pela mesma, temos por finalidade obedecer a lei. Calvino liga o arrependimento e a regeneração a fé no nosso Senhor Jesus Cristo. Apresenta a relação entre a justiça das obras e a justiça da fé. O Reformador Genebrino também faz uma exposição do Credo dos Apóstolos o qual chama de “Símbolo da Fé”. Conclui a seção com a afirmação de que a esperança é a expectativa das coisas que a fé creu como sendo verdadeiras promessas de Deus.
A quarta parte trata da oração, sua necessidade e seu sentido. Calvino faz uma exposição da oração ensinada por nosso Senhor Jesus Cristo e conclui com a necessidade de perseverarmos na prática da oração.
Na quinta parte Calvino trata dos sacramentos, batismo e ceia, sinais externos que testemunham da graça de Deus. Explora seus significados e benefícios para nossa vida como meio de graça.
A sexta parte trata da Ordem na Igreja, os pastores, responsáveis pela administração dos sacramentos e pelo ensino, devendo estes resistir àquelas tradições humanas que obscurecem a verdadeira religião. Enfatiza que a igreja deve excomungar aqueles que são abertamente pecadores impenitentes, para o bem dos mesmos e para que a mesma não se contamine. Trata também da sociedade e do magistrado que foi instituído pelo próprio Deus, devendo seus súditos honrá-los e interceder por eles, suportando injustiças da parte dos mesmos, desde que não nos ordenem a fazer algo contra Deus e sua vontade (At .19).
A leitura deste livro é de grande importância para uma introdução e e compreensão do pensamento de João Calvino. Embora resumido no seu conteúdo em relação às Institutas da Religião Cristã, o texto se apresenta com grande profundidade. Não só apresenta a essência

Educare: peregrinos no tempo...


O termo “educação” procedente do latim educare (e seu cognato educere) significa “guiar, conduzir”, e o prefixo “e” pode ser traduzido por “para fora”. Em seu significado elementar, educação é a atividade de “conduzir para fora”. Libâneo (1985, p.97) define educação como: “educar (em latim, educare) é conduzir de um estado a outro, é modificar numa certa direção o que é sucestível de educação”.
Encontram-se três aspectos distintos no significado básico de “conduzir para fora”: 1) a partir de um dado ponto, 2) um processo presente, e 3) um futuro em direção ao qual se efetua o “guiar para fora”. Sendo assim, a educação tem uma dimensão de “já”, uma de “ser concebida” e uma de “ainda não”.
O primeiro aspecto “já”, expressa tanto o que o aprendiz já sabe, como o que o educador sabe e o aprendiz tem capacidade interior de aprender. É o que John Dewey (1971, p. 19) chamou de “o capital consolidado da civilização” e parte da tarefa educacional é assegurar a conservação dessa herança, tornando-a disponível para as pessoas no presente.
O segundo aspecto, o de “um processo presente que está sendo concebido”, enfatiza não o que já está lá, mas aquilo que está sendo descoberto pelos alunos e educador na experiência do dia-a-dia. Entende-se que o tempo presente é de um processo ativo de reflexão e experimentação. É também como o tempo do compromisso imediato com a vida, pois o tempo presente não é meramente para redescobrir o já sabido; porém, acrescenta algo ao legado do conhecimento. O educador reformado Comenius, o Pai da didática moderna t oma a natureza criada como analogia para estabelecer princípios em que se fundamenta a solidez no ensinar e no aprender e afirma que a solidez é obtida “se tudo o que é posterior se fundamentar no que for anterior” (COMENIUS, 2002, p.184). E na escola, conclui que “todos os estudos devem ser organizados de tal modo que os estudos sucessivos sempre se baseiem nos precedentes e estes sejam consolidados por aqueles” (COMENIUS, 2002, p. 194).
O terceiro aspecto é o do “ainda não”, um guiar para fora rumo a um saber ainda não realizado. Se quisermos ter um futuro aproveitável, devemos educar com esta finalidade. Não é só uma preocupação pelo futuro do estudante, o futuro é aberto também para o educador, logo, uma preocupação do educador em relação ao futuro de toda a comunidade. Educamos para garantir que todos nós possamos ter um futuro. Para Paulo Freire (1982, p. 51), em Ação Cultural para a Liberdade a preocupação com o futuro é a dimen­são utópica da educação. Ele quer com isto dizer que a educa­ção não deve permitir que as pessoas se moldem pelo que já são, mas deve levá-las a construir um mundo melhor.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COMENIUS, João Amós. Didática Magna. Trad. Ivone Castilho Benedetti, 2ª ed. São Paulo; Martins Fontes, 2002.
DEWEY, John. “My Pedagogic Creed”. In D ewey on Education. Compilado por Martin S. Dworkin. Classics in Education No 3. New York: Teachers College Press, 1971.
FREIRE, Paulo. Ação Cultural para a Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da escola pública: a pedagogia crítico social dos conteúdos. São Paulo, Loyola, 1985.

O Deus que se Revela


Antes do século dezessete, ficou reconhecido que a filosofia e a teologia lidavam com as mesmas perguntas básicas. A única diferença entre as duas disciplinas era que a filosofia refletia e argumentava sobre essas perguntas básicas em grande parte sobre a razão e a revelação natural, enquanto a teologia refletia e argumentava principalmente sobre a revelação especial. Na Idade Média, foi dito que a filosofia servia como um instrumento da teologia. A Teologia foi estabelecida como a rainha das ciências. Quando a filosofia tomou a frente, logo ficou claro que ela não estava à altura de responder as perguntas básicas da vida. Somente a realidade da existência de Deus conhecida pela revelação dEle, provê as respostas para estas grandes questões. Schaeffer defende nesta obra que o homem tem uma necessidade filosófica de Deus existir e não estar em silêncio em três áreas: em primeiro lugar a metafísica que trata do Ser, da Existência; em segundo lugar da moral e o terceiro campo da epistemologia – o problema do conhecimento. Estas são três áreas que a filosofia tem que lidar e são, respectivamente: o problema da existência, o problema do comportamento moral de homem e como o homem poderá “vir a saber e como podemos saber que sabemos”. O ser humano é incapaz de viver sem uma visão de mundo. Daí, a necessidade metafísica da existência de Deus. Tal necessidade demonstra que deve haver algo ou alguém que é tão grande, poderoso, sábio o suficiente e desejoso de criar e manter o universo em que vivemos. Se estas exigências não são satisfeitas, então o homem é forçado a admitir que ele está aqui por casualidade e que, conseqüentemente, não tem nenhum destino especial. A necessidade moral da existência de Deus centraliza o homem como um ser pessoal que distingue entre o certo e o errado. Só há duas opções: Ou o homem foi criado de um começo impessoal e o seu sistema moral é um produto da cultura dele, ou o homem teve um começo pessoal e lhe foi dado determinadas leis para seguir e um senso interior do certo e errado. A necessidade moral de Deus está fundamentada na necessidade filosófica de considerar por que o homem é ao mesmo tempo cruel e maravilhoso. Isto só pode ser explicado em termos do fato bíblico da queda. A necessidade epistemológica da existência de Deus direciona nossa habilidade para saber o que no final das contas é real. A maior parte do problema moderno na área de conhecimento começou no século dezessete. Com o desenvolvimento da revolução científica, os critérios para a verdade passaram a ser o que poderia ser demonstrado em um laboratório. O resultado foi que a crença em Deus e no milagre não podiam ser demonstrados em um laboratório, sendo assim abandonados por muitos. O resultado final foi o pessimismo e o desespero que considera as verdades teológicas e, mais recentemente, qualquer verdade com não sendo absoluta. Schaeffer responde; “Existiu um período anterior à queda, e então o homem desviou-se do seu ponto de integração apropriado, por sua escolha; e, assim procedendo, houve uma descontinuidade moral – O homem tornou-se anormal. Se removermos este fato, toda e qualquer resposta que se possa dar ao homem e ao seu dilema moral, também estará extinta, bem como o cristianismo bíblico e histórico. A única resposta para estes três dilemas é um apelo ao Deus que está aqui, e para a sua revelação natural e especial. A base do Cristianismo é a convicção que o Deus Trino está aqui, se revela a nós e que o homem pode comunicar-se com Ele. Se isto não for verdade, então nós estamos sem nenhum fundamento. A obra de Shaeffer é de grande importância em pelo menos três aspectos: Primeiro, diante da necessidade básica de todos os seres humanos em saber as respostas às grandes perguntas da vida, Schaeffer demonstrou que Deus deu para o homem as respostas na forma de revelação natural e especial. Segundo; Schaeffer demonstrou que a fé Cristã não só é a verdade, mas que é a única resposta plausível para a existência do homem e o seu lugar no universo. Ele também demonstrou que uma fé irracional não é o que Deus pretendeu comunicar. Terceiro, Schaeffer era um verdadeiro profeta que enxergou no seu tempo o que outros não conseguiam enxergar. Ele viu que o gênero humano, cristãos e não -cristãos, estavam perdidos num mar de irracionalidade. Ele percebeu que a verdade do Cristianismo ortodoxo estava se perdendo em meio à teologia liberal e o resgatou. Deus existe de fato e falou conosco através da Bíblia, revelou a verdade sobre o mundo, sobre si mesmo e sobre o homem.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

O que é Arte?


Por estar relacionada com a vida e a necessidade do homem se expressar, o conceito de arte parece ser de grande complexidade. Gombrich (1999, p. 15) afirma que “nada existe realmente a que se possa dar o nome Arte“. Para o mesmo existe apenas o artista e deve-se estar consciente de que tal palavra pode significar uma diversidade de coisas em épocas e lugares diferentes.
Para Coli (2005, p.7), dizer o que seja arte é coisa difícil, já que inúmeros tratados sobre estética são contraditórios.
O termo “arte” ou “obra de arte pode ser usado no sentido classificativo ou valorativo. No sentido classificativo, não está em jogo se uma determinada obra de arte é boa ou não, mas pretende-se apenas firmar se um determinado objeto ou produção se classifica como obra de arte. O sentido valorativo tenta expressar o valor positivo ou negativo, bom ou ruim de uma obra de arte.(1)
Para alguns, a arte pode ser sinônimo de beleza, estando relacionada à Estética.(2) Reis (1987, p. 9) define a obra de arte como todo trabalho que nos emociona por sua perfeição, beleza e originalidade.
No entanto, ficam muitas dificuldades: primeiro, o conceito do que é belo e perfeito varia segundo a época, a cultura e a subjetividade do artista. Segundo, o conceito de belo é muito subjetivo para quem contempla a obra de arte, pois o que pode ser belo para uma pessoa, pode não ser para outra, o que alguns chamam de teoria do gosto.(3)
Sobre isso, Gombrich (1995, p 16) escreve: Na realidade, não penso que existam quaisquer razoes erradas para se gostar de uma estátua ou de uma tela. Alguém pode gostar de certa paisagem porque esta lhe recorda a terra natal, ou de um retrato porque lhe lembra um amigo. Não há nada de errado nisso. (...) Só quando alguma recordação irrelevante nos torna preconceituosos, quando instintivamente voltamos as constas a um quadro magnífico de uma cena alpina porque não gostamos de praticar o alpinismo, é que devemos sondar o nosso íntimo para desvendar as razões para a aversão que estragam um prazer que, de outro modo, poderíamos ter tido. Existem razões erradas para não se gostar de uma obra de arte.
Uma terceira dificuldade que encontramos é: será que o belo é elemento indispensável para que uma produção artística seja considerada arte?
Beleza é uma percepção individual caracterizada normalmente pelo que é agradável aos sentidos. Mas fica difícil definir que belo é aquilo que é agradável aos sentidos. Aquilo que é desagradável aos sentidos também pode ser belo. Podemos citar como exemplo a tela de Edvard Munch “O Grito” e suas evoluções considerado como uma das obras mais importantes do movimentoexpressionista. Um crítico da época considerou o conjunto tão perturbador que aconselhou mulheres grávidas a evitar a exposição. A reação do público, no entanto, foi a oposta e o quadro tornou-se em motivo de sensação.
Um registro de seu diário expressa bem o espírito de angústia do artista. Passeava com dois amigos ao pôr-do-sol – o céu ficou de súbito vermelho-sangue – eu parei, exausto, e inclinei-me sobre a vedação – havia sangue e línguas de fogo sobre o azul escuro do fjord e sobre a cidade – os meus amigos continuaram, mas eu fiquei ali a tremer de ansiedade – e senti o grito infinito da Natureza (WIKPÉDIA).
As teorias essencialistas(4) sobre conceituação de arte, defendem que existe uma essência de arte, ou seja, que existem propriedades essenciais comuns a todas as obras de arte e que só nas obras de arte se encontram. As teorias essencialistas se dividem em três grupos: imitação, expressão e significante.
A teoria de arte como imitação entende que uma obra de arte só é arte se essa obra imita algo. No entanto, encontramos na pintura, na escultura abstrata e em outras artes visuais não figurativas, obras de arte que não imitam nada.
São as duas últimas que chamam a nossa atenção nessa simples tentativa de refletir o que seja arte relacionada com a estética como belo, perfeito e agradável aos sentidos.
A teoria da arte como expressão, afirma que uma obra é arte se exprime sentimentos e emoções do artista. Porém, há obras que não exprimem nenhum sentimento ou emoção no observador. O que dizer da chamada música aleatória (música feita com o recurso a sons produzidos ao acaso)? Além disso, mesmo que uma obra de arte provoque certas emoções em nós, daí não se segue que essas emoções tenham existido no seu autor (ALMEIDA).
E por fim, a teoria da arte como forma significante que afirma que uma obra é arte se provoca nas pessoas emoções estéticas. Esta teoria, defendida, entre outros, pelo filósofo Clive Bell, tem como ponto de partida o sujeito sensível que aprecia a obra de arte. Essa teoria apresenta uma enorme dificuldade, pois algumas pessoas não sentem nenhuma emoção ou significado diante de uma obra de arte que é considerada arte. Novamente estamos diante do subjetivismo do sujeito observador. Também fica a dificuldade de definir o que seja uma emoção estética. Seria uma combinação de cores e linhas na obra de arte como quer Clive Bell? E em que consiste a forma significante na música, na literatura, no teatro, etc.?
Pelo que se vê nenhuma teoria ou conceito tem um caráter completo e satisfatório.
Parece melhor, como faz Coli (2005, p. 131), refletir sobre arte na perspectiva da relação expectador-obra. O termo tem um caráter subjetivo, pois qualquer coisa pode ser chamada de Arte, desde que alguém a considere assim, não precisando ser limitada à produção feita por um artista. Esta percepção depende do contexto e do universo cognitivo do indivíduo que a observa.
A arte também é um fenômeno cultural, portanto sempre em movimento no decorrer da história. Logo, não há como estabelecer um conjunto de regras absolutas sobre a arte, pois o conjunto de regras não vai sobreviver ao tempo, mas em cada época, diferentes grupos (ou cada indivíduo) escolhem como devem compreender esse fenômeno.
Existe também uma variedade de conceitos do que seja beleza e perfeição entre indivíduos de um mesmo contexto histórico e geográfico. Associar arte ao conceito belo como aquilo que é agradável, também fica na superficialidade.
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[1] Estes dois usos são frequentemente confundidos e é imprescindível tê-los em mente quando se discutem as diferentes teorias da arte.
[2] Chama-se Estética a ciência do belo. A palavra estética é de origem grega e significa “teoria sobre a natureza da percepção sensível”. Estética é a disciplina filosófica que se ocupa dos problemas, teorias e argumentos acerca da arte.
[3] Aires Almeida entende que a Estética só pode ser compreendida por meio da filosofia da arte. Este crítico apresenta três argumentos para tal compreensão: Em primeiro lugar, tanto a teoria do belo como a teoria do gosto dirigiram o seu interesse de forma particular para as obras de arte. Para além do problema de saber o que é o belo, um dos problemas colocados pela teoria do belo foi o da distinção entre o belo natural e o belo artístico. No mesmo sentido também os defensores da teoria do gosto procuraram compreender porque é que a arte está na origem de grande parte dos nossos juízos de gosto. Em segundo lugar, a teoria do belo e a teoria do gosto não conseguem dar conta de muitos dos problemas que se colocam com o conceito de arte. É o caso das obras de arte que dificilmente podemos considerar belas e daquelas de que não gostamos mas não podemos deixar de considerar obras de arte. Em terceiro lugar, o desenvolvimento da arte consegue levantar problemas acerca dos conceitos de belo e de gosto que estes não conseguem levantar acerca da arte. Isso torna-se evidente quando, por exemplo, os gostos e a própria noção de belo se podem modificar à medida que contactamos com diferentes obras de arte (a idéia de que a arte educa os gostos e influencia a nossa própria noção de belo.
[4] Entende-se por teoria essencialista um conjunto de idéias de arte intuitivamente partilhada por muitas pessoas.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ALMEIDA, Aires. O Que é Arte? Três teorias sobre um problema central da estética. Disponível em http://criticanarede.com/fil_tresteoriasdaarte.html, acesso em 07/12/2006
COLI, Jorge. O que é Arte. 15ª ed., Editora Brasiliense, São Paulo – SP, 1995
GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Trad. Álvaro Cabral. 16ª ed. LTC – Livros Técnicos e Científicos, Rio de Janeiro – RJ , 1999.
REIS, Sandra L. de Freitas. Educação Artística; introdução à história da arte. Belo Horizonte, 1987.
Wikipedia. http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Grito_(Edvard_Munch) – Acesso em 07/12/2006.