quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O Islamismo

A palavra islã deriva da quarta forma verbal da raiz sim: aslama, submeter-se" e significa "submissão (a Deus)"; muslim, muçulma­no, é seu particípio presente: "(aquele) que se submete (a Deus)".
Sendo uma das mais importantes religiões da humanidade, o islamismo está hoje presente em todos os continentes. É predominante no Oriente Médio, na Ásia Menor, na região caucasiana e no norte do subcontinente indiano, no sul da Ásia e na Indonésia, na África do norte e do Leste.
A Arábia, antes do islamismo, era território do politeísmo se­mítico, do judaísmo arabizante e do cristianismo bizantino. As re­giões do norte e do leste, atravessadas pelas grandes rotas comer­ciais, foram profundamente influenciadas pelo helenismo e pelos romanos. No tempo de Maomé, o culto dos deuses tribais havia rele­gado a segundo plano a antiga religião astral do Sol, da Lua e de Vénus. A principal divindade tribal era adorada sob a forma de uma pedra, talvez meteórica, de uma árvore ou de um bosque. Em sua honra erigiam-se santuários, apresentavam-se oferendas e sacrifica­vam-se animais. A existência de espíritos onipresentes, às vezes ma­lignos, chamados djins, era universalmente admitida antes e depois do advento do islamismo. Alá, "Deus", era venerado ao lado das grandes deusas árabes. As festas, os jejuns e as peregrinações eram as principais práticas religiosas. O henoteísmo e o monoteísmo do culto de al-Rahmãn também eram conhecidos. Grandes e poderosas tribos de judeus haviam-se estabelecido nos centros urbanos, como o do oásis de Yathrib, que mais tarde se chamaria Medina (Madina, "A Cidade"). As missões cristãs haviam feito alguns prosélitos (co­nhece-se um na família da primeira mulher de Maomé). No século VI d.C, Meca (Makka), com seu santuário da Caaba em torno do famo­so meteorito negro, já era o centro religioso da Arábia Central e uma importante cidade comercial. Durante toda a vida, Maomé deploraria suas estruturas sociais, a rudeza de seus cidadãos, suas desigualdades econômicas, sua moralidade decadente.
Maomé nasceu numa família de mercadores de Meca (família dos Hashimitas, tribo dos Curaixitas) em cerca de 570. Empobrecido ao morrerem os pais e o avô, lançou-se em empreendimentos comer­ciais. Aos vinte e cinco anos, casou-se com sua empregadora, uma rica viúva de quarenta anos, chamada Cadija. Por volta de 610, du­rante uma das meditações solitárias que ele fazia periodicamente nas grutas das proximidades de Meca, começou a ter visões e revelações auditivas. Segundo a tradição, o arcanjo Gabriel apareceu-lhe e mos­trou-lhe um livro, convidando-o a ler (Iqra'!, "Lê!"). Maomé descul­pou-se várias vezes por não saber ler, mas o anjo insistiu e o profeta ou apóstolo (rasul) de Deus conseguiu ler sem dificuldade. Deus re­velou-lhe, como aos profetas de Israel, a incomparável grandeza di­vina e a pequenez dos mortais em geral e dos habitantes de Meca em particular. Durante certo tempo, Maomé só falou sobre suas revela­ções e sobre sua missão profética às pessoas de sua intimidade, mas o círculo de fiéis foi ficando cada vez maior e a freqüência às reu­niões cada vez mais constante. Ao fim de três anos, Maomé começou a pregar publicamente sua mensagem monoteísta, encontrando mais oposição que aprovação, de tal sorte que os membros de seu clã tive­ram de dar-lhe proteção.
Nos anos que se seguiram, ele teve inúmeras outras revelações; várias delas iriam constituir a teologia do Corão. Uma das revela­ções, revogada mais tarde e atribuída a Satã, reservava o papel de intercessoras junto a Alá a três deusas locais muito populares. A medida que Maomé ia ganhando partidários, a oposição à sua men­sagem ficava mais intensa. Acusavam-no de mentir, pediam-lhe que fizesse milagres para provar sua qualidade de profeta e sua vida cor­ria perigo. Por isso, procurou novos quartéis para seu movimento, os quais lhe foram fornecidos por clãs de Medina, cidade situada a 400 km ao norte de Meca, que abrigava grande número de judeus. Os partidários de Maomé começaram a mudar-se para lá e, em 622, o próprio Maomé e seu conselheiro Abu-Bakr partiram em segredo para Medina. Esse acontecimento, chamado Hijra, "Emigração" (Hégira), marca o início da era islâmica. Mas a transposição para os anos da era cristã não é feita simplesmente pela adição de 622 ao ano da Hégira, pois o calendário religioso islâmico é lunar e só tem tre­zentos e cinqüenta e quatro dias.
Nos dez anos que passou exilado em Medina, Maomé continuou a receber revelações. Ao lado de suas palavras e ações (hadíth, que também fazem parte da tradição), essas revelações, fixadas por escri­to, constituem o conjunto do código da vida muçulmana. Durante esse período, o governo da vida religiosa de seus partidários conti­nuou ocupando Maomé, que também empreendeu numerosas expe­dições punitivas contra seus inimigos de Medina e em especial de Meca, cujas caravanas ele tomava de assalto. Essas ações levaram a uma guerra entre as duas cidades, durante a qual foram entabuladas conversações com vistas à conversão dos habitantes de Meca. Fi­nalmente, Maomé e seu exército ocuparam Meca, que se tornou o centro de orientação para a prece (qiblah) e lugar de peregrinação (hadj) de todos os muçulmanos. Depois de transformar o islamismo numa força temível, Maomé morreu em Medina, em 632, sem deixar herdeiro masculino.
A palavra Qur'ãn (Corão), de qara'a, "ler, declamar", é, para os muçulmanos, a palavra de Deus transmitida por Gabriel ao profeta Maomé, último de uma sucessão de profetas bíblicos. Trata-se, se preferirmos, de um novo "Novo Testamento", que não contradiz mas confirma e supera a Bíblia dos judeus e dos cristãos. Mas o Corão também tem, como Jesus Cristo na interpretação platonizante do Evangelho de João e dos Padres, a função de logos, de Verbo eterno do Deus criador. Maomé, porém, não assume essa função: não aceita que ela possa ser revestida por um ser humano, pois, embora eleito e sem faltas, Maomé é inteiramente humano. A maior parte de suas re­velações foi redigida por ele e por vários secretários. Depois de sua morte, existia grande número de textos e de testemunhas que lembra­vam suas palavras. O texto completo do Corão foi constituído sob os primeiros califas e suas variantes foram suprimidas. É composto por 114 capítulos chamados surahs, que contêm um número variável de versos chamados ãyãts. Os capítulos não estão dispostos em ordem cronológica ou tópica, mas na ordem inversa à sua extensão, de tal forma que a maior parte das primeiras revelações poéticas de Meca encontra-se no fim da coleção, enquanto as súrahs mais longas estão no começo. Cada surah tem um título e todas, com exceção de uma, começam com o verso chamado Basmallah: "Em nome de Deus, o clemente, o misericordioso" (Ba-sm-allãh al-rahmãn ai rahim). Vá­rias delas estão marcadas com letras simbólicas, que talvez indiquem a coleção à qual pertenceram. O livro é escrito em prosa rimada e contém imagens belas e fortes.
O advento do Corão realizou sua intenção original, que era abrir aos árabes o acesso à comunidade dos "povos do livro", como os ju­deus e os cristãos, que haviam recebido a Tora e os Evangelhos. Os dois grandes temas do Corão são o monoteísmo e o poder de Deus e a natureza e o destino dos homens em sua relação com Deus. Deus é o único criador do universo, dos homens e dos espíritos; é benévolo e justo. Recebe nomes que lhe descrevem os atributos, como Onisciente e Onipotente. Os seres humanos são os escravos privilegiados do Senhor e têm a possibilidade de ignorar os mandamentos de Deus, sendo muitas vezes induzidos à tentação pelo anjo decaído Iblis (Satã), expulso do céu por ter-se recusado a adorar Adão (2, 31-33; esse episódio já é encontrado no apócrifo Vida de Adão e Eva). No dia do Juízo todos os mortos ressuscitarão, serão julgados e enviados para o inferno ou para o paraíso por toda a eternidade. O Corão reinterpreta vários relatos bíblicos (Adão e Eva, as aventuras de José, o monoteísmo de Abrão e Ismael) e grande número de exortações morais que, com as tradições referentes à vida do profeta, formam a base da lei islâmica (sharVah). A generosidade e a veracidade são re­comendadas, enquanto o egoísmo dos mercadores de Meca é conde­nado irremediavelmente. As práticas fundamentais da vida religiosa do muçulmano são as preces cotidianas (salãts), a esmola, o jejum do Ramada e a peregrinação a Meca. A fórmula do culto público muçul­mano foi fixada no fim do século VII. Cada muçulmano tem de pro­nunciar as cinco orações diárias, anunciadas pelo adhãn (convoca­ção) entoado pelo muezin do alto do minarete (manãrah). Não é necessário que o muçulmano esteja na mesquita. Onde quer que este­ja, deve primeiro praticar as abluções rituais (wudã') e depois voltar-se para a direção de Meca (qiblah), recitar frases do Corão, como a shahãdah (o credo muçulmano) e o takblr {Allãhu akbar, Deus é grande), e prosternar-se duas ou mais vezes {raka 'ãt). Na mesquita, a qiblah é marcada por um nicho chamado mihrãb. As preces comuns são feitas sob a direção de um imã. Cada sexta-feira (yawm aljum'ah), o khaúb (substituto do califa ou de seu governador), que se dirige aos fiéis do alto de um púlpito (minbar), pronuncia um sermão (khutbah) diante da assembleia dos fiéis na mesquita principal. As mesquitas não têm altar, pois não são templos sacrificais, como al­gumas igrejas cristãs, nem lugares em que são depositados os rolos santos da revelação escrita, como as sinagogas judias. Contudo, a mesquita (masjid) é um lugar sagrado; pode conter o túmulo de um santo ou relíquias do Profeta.
À reforma religiosa de Maomé seguiram-se reformas sociais e legais. É assim que a tradição muçulmana forma a base da justiça social, das regras recíprocas de comportamento dos cônjuges, dos pais e das crianças, dos proprietários de escravos, dos muçulmanos em relação aos não-muçulmanos. A usura é proibida; são proclamadas leis alimentares. A situação das mulheres melhora: elas recebem a metade da herança recebida pelos homens. A casuística corânica fixa em quatro o número de esposas permitidas, mas recomenda só ter uma. As interpretações dessa prática feitas pelos estudiosos são contraditórias.

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ELIADE, Mírcea; COULIANO, Ioan P. Dicionário das Religiões. 2a ed. Trad. Ivone Castilho Benedetti. São Paulo, SP, Ed. Martins Fontes, 2003 - Capítulo 20.

5 comentários:

afonso disse...

eu afonso henrique..
achu essa materia legal

ii em vez em quandu violenta..

me add no orkut..

valeu..

afonsojeruza@hotmail.com












tomástubarno
paulatejando e
oscáralho

tiveram a mesma opinião do q eu..

prince e andressa disse...

pelo amor de deus esse texto é muito grande eu tive q copiar ele todo em trabalho da escola quase morri de tanto copiar.achei interessante mais é muito grande.

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
SOU EU disse...

SECAAA
TEXTO MUITO GRANDINHO

Efigênia Mascarenhas disse...

Estou elaborando um trabalho sobre missões e o tema que escolhi foi Islamismo, quero parabenizá-lo pela riqueza de detalhes e pelo conteúdo do Blog.

Efigênia Mascarenhas